sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

The Wedding Dress


Envolto num pacote branco e pendurado num cabide lá estava o Vestido de Noiva, sendo carregado ao alto da cabeça da dita cuja. Seis da manhã em Nova Iorque, os passageiros do voo TAM com destino a São Paulo estavam rigorosamente enfileirados para o check-in.
Mas o Vestido era especial. A sua noiva, ou o noivo, pouco importa, eram clientes fidelidade vermelho e facilmente burlavam a fila homérica.
-Vai despachar? – perguntou a atendente.
“De jeito nenhum!” Responderia o vestido caso ele soubesse falar.
-Não, ele vai na mão mesmo. – disse a mãe da noiva, num tom educadamente ofendido.
A noiva trocou o cabide de braço, era pesado o Vestido.
Foram os cinco para o embarque, noiva, noivo, sogros e Vestido. Na hora de passar pelo raio x, sua dona colocou delicadamente a vestimenta sobre a esteira, com medo de que amassasse. O Vestido não se importou, estava bem protegido por sua capa branca.
Passada a exagerada segurança americana, a noiva novamente pegou o cabide e ergueu a delicada peça de roupa para o alto.
Chegaram a sala de embarque, não estava muito cheia ainda, as vantagens de ter cartão fidelidade vermelho.
Sentaram-se os cinco, cada um em uma cadeira.
-Coloca a bolsa na cadeira do vestido, amor. – disse o noivo.
-Não! Vai amassar. – respondeu a sogra, e colocou a bolsa da filha no colo.
Aos poucos passaram a chegar mais pessoas, os lugares para se sentar acabaram e alguns olhares feios se dirigiram à cadeira ocupada exclusivamente por aquele pedaço de pano branco.
Se pudesse falar, o Vestido responderia:
“Podem olhar. Não vou sair daqui nem dar meu lugar a vocês. Sou especial, sou um Vestido de Noiva de uma grife de Nova Iorque, e vocês quem são?”
Depois de um tempo que não parecia passar nunca, chamaram os passageiros para o embarque na aeronave. Novamente, todos se enfileiraram.
O Vestido tinha prioridade, junto com idosos, deficientes, gestantes ou pessoas com crianças de colo.
Embarcaram todos.
A noiva, o noivo e os sogros haviam conseguido o primeiro acento da classe econômica, aqueles com a parede bem a frente, onde podiam pendurar o Vestido e garantir que ele fizesse uma viagem segura.
Todos se acomodaram, alguns até caíram no sono, enquanto esperavam o aviso de decolagem autorizada.
O avião começou a taxiar na pista. Testou as turbinas, preparou-se para voar. E então parou.
-Atenção senhores passageiros, aqui quem fala é o comandante. Nós encontramos um problema numa das peças da aeronave. Informamos que o voo terá um atraso de uma hora enquanto realizamos a manutenção.
Uma hora não era muito, dava para esperar. Mas quando a segunda hora já avançava longe os passageiros começaram a se perguntar o que estava havendo.
-Senhores passageiros, aqui é novamente o comandante. A peça terá que ser trocada. Não há nenhuma do tipo em Nova Iorque, portanto o processo demorará cerca de oito horas. Os senhores deverão esperar no saguão do aeroporto por novas instruções.
-O quê? – exclamou o noivo indignado.
Muitas outras pessoas fizeram-lhe coro. Xingando, mas obedientes, todos saíram do avião.
A noiva adiantou-se para o Vestido.
-Não, eu levo, amor, isso pode demorar. – ofereceu-se o noivo.
De bom grado a mulher aceitou, seus braços ainda se lembravam do peso do tecido. O Vestido sentiu-se traído, mas nada podia fazer e foi com o noivo sem reclamar.
O saguão estava apinhado de brasileiros, todos falando alto e enfileirados sem motivo, fazendo jus à sua fama internacional.
O noivo resolveu sentar o Vestido numa cadeira vazia. Não queria se cansar tão rápido.
O autofalante chiou e uma mensagem em português soou clara:
“Atenção passageiros TAM com destino a São Paulo. A companhia informa que seu voo foi cancelado e que os senhores devem acompanhar a funcionaria Jaia até o hotel.”
Imediatamente milhares de perguntas surgiram.
-Cancelado? Como assim Cancelado?
-Hotel?
-Qual hotel é esse?
-Tem quarto melhor pra primeira classe?
-É em Manhattan? Ou aqui no Queens?
-Como vamos pra esse hotel?
-Não seria melhor ficar aqui?
Para tudo, uma pobre e desesperada atendente da TAM respondia a altos brados do balcão:
-Sigam a funcionaria Jaia! Sigam a funcionaria Jaia!
Até que, em uníssono, todos os passageiros gritaram.
-E cadê a Jaia?
Uma pequena mão levantou-se no ar.
-Estou aqui! – gritou Jaia, do alto de seu 1,45 m de altura.
Um homem mais alto agarrou-a pelo ombro e chamou os demais.
-Achei a Jaia! Todo mundo consegue me ver?
Não, ele também não chamava atenção o suficiente. O Vestido teve um insight e escorregou um pouco na cadeira para chamar a atenção do noivo para si.
Deu certo. O homem, desesperado pela segurança do Vestido, rapidamente pegou-o pelo cabide por uma mão e ergueu-o no alto da cabeça, com a outra, pegou a noiva e foi em direção ao ponto onde, hipoteticamente, estava Jaia.
O plano do Vestido não demorou a ser compreendido pelos demais.
-Coloca o Vestido do lado da Jaia, assim não tem como perder ela de vista.
A ideia foi aplaudida pelos demais e logo, o Vestido e sua comitiva andavam a frente, guiando os passageiros pelos túneis do aeroporto em direção ao metrô.
De repente, Jaia parou.
-Atenção! Todos conseguem me ouvir? – gritou a sua voz fraquinha.
Da metade pro fim do grupo, instintivamente, todos responderam:
-Não!
Uma mulher carioca, que estava situada exatamente no meio do grupo, se adiantou:
-Dá licença, Jaia? É que tua voz é meio fraquinha. Diz aí o que você quer falar que eu passo para o pessoal.
A funcionaria passou as instruções. Peguem o metrô, desçam na estação tal, não percam de vista o Vestido.
A voz de megafone da mulher carioca garantiu que todos compreendessem a mensagem.
Entraram no trem. O noivo carregando o Vestido, em vão tentando evitar que amassasse no enlatado que estava o vagão.
Chegaram ao hotel. Daqueles simples, perto de aeroporto. Foram recebidos por um aviso em tinta vermelha num quadro para canetas branco, escrito às pressas, dando-lhes as boas vindas.
Cada grupo de passageiros conseguiu um quarto. O Vestido foi guardado na segurança do cômodo, tendo consigo os sogros ou a noiva para vigiá-lo, nunca o noivo. Dá azar.
No saguão, os passageiros comentavam o feito heroico do Vestido.
-Sem ele teríamos nos perdido.
-Será que é bonito? A noiva podia mostrar pra gente né?
-Podia. A gente prendia o noivo no quarto enquanto ela trazia o Vestido pra baixo e...
-Gente, e que noivo, hein?
-Pois é, carregando o vestido assim, sem reclamar.
-Isso não é noivo, é irmão.
-Se é, então a irmã deve ser uma chata e ele quer que ela saia logo de casa, senão não carregaria vestido.
-Não, é noivo, conheço esse casal.
-Sério? Então você vai no casamento.
-Não... Não fui convidada.
-Nossa que chato.
-Eles deviam é convidar o avião inteiro depois dessa. Somos parte importante da história do Vestido.
Estavam tão entretidos em seus comentários que não repararam a funcionaria Jaia se esgueirar para fora do hotel.
-Cadê a Jaia?
-Sumiu.
-E como vamos saber quando voltar?
-Não vamos.
Um dia inteiro se passou. Os passageiros estavam assustados. A companhia aérea não dava notícias. O hotel reclamava de sua presença. E o Vestido de Noiva não estava a vista.
Pela manhã do segundo dia um grande ônibus apareceu na porta do hotel.
-Será que é para irmos embora? – perguntou uma menina esperançosa.
-Não sei, vou perguntar.
O motorista dizia que era, mas não havia ninguém da TAM para confirmar.
Como uma estrela-guia, surgiu o Vestido, retirado da segurança de seu quarto e novamente na mão do noivo, sendo carregado no alto.
-O Vestido! Sigam o Vestido!
-Se ele vai eu também vou. – disse uma senhora.
-E eu! – concordou sua amiga.
Foram todos. Todos confiavam naquele Vestido.
Chegaram de fato ao aeroporto. Novamente sentaram-se nas cadeiras duras da sala de embarque. Dessa vez, quando o casal colocou o Vestido em uma cadeira especial ninguém reclamou ou olhou feio, haviam aprendido a dar-lhe seu verdadeiro valor.
Só uma cadeira está bem para o senhor, senhor Vestido? Posso ceder-lhe a minha se quiser.
Embarcaram no voo mais turbulento que qualquer um já conhecera. Durante toda a viagem o Vestido temia cair no chão. A noiva olhava preocupada, com o medo que amassasse entrando em conflito com o medo por sua própria vida.
Enfim tocaram solo brasileiro. Nunca as instruções de desatar cintos apenas com a parada total da aeronave foram obedecidas tão literalmente.
Uma salva de palmas ecoou pela cabine. Todos gratos por estarem em casa.
O comandante pode ter acreditado que aquelas palmas eram para ele, que ele havia feito um bom voo. Mas não. Aquelas palmas eram para o Vestido, que salvara as vidas de todos naquela aeronave. Graças a ele, ninguém havia sido deixado para trás.
Se estavam seguros e em casa era ao Vestido que deveriam agradecer. Ele havia provado seu valor.
Portanto, dou-lhe uma dica; se algum dia tiver que escolher entre uma companhia aérea e um vestido, escolha a segunda opção, vestidos são, por natureza, mais confiáveis.

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