Cheiro de amaciante e de roupa guardada. Cheiro de panqueca, de caramelo e de carpet que nunca foi lavado. Cheiro de lixo, de chulé e de falta de banho. Cheiro de pipoca e de vinagre no cabelo.
Luz atravessando a persiana branca, que pouco faz para contê-la, a janela fria deixa a tela do celular carregando quase congelada.
Hum... cheiro de amaciante. Lençol, travesseiros e edredom novos, quentinhos e leves ao mesmo tempo, tão macios.
Tem alguma coisa vibrando contra o pé, alguma coisa gelada. Celular vibrando no contra o pé... Não... deixa dormir só mais um pouquinho...
Celular vibrando?
Putz! Desliga! Rápido! Antes que acorde todo o apartamento!
Desliga! Desliga!
...
Ah... Proooonto...
Huuuum... Aaaah...
Cheiro de amaciante, de vinagre, de pipoca, de chulé, de lixo, de panqueca, de carpet que nunca foi lavado, de caramelo, de roupa guardada…
Paredes bege refletem a luz que entra da janela. Paredes bege sem enfeites, teto branco, duas mesas de cabeceira e uma cômoda de madeira. Dois quadros de estopa e é só. Tudo bege. E muitos cheiros.
Que horas são?
Oito e meia ainda.
Tem tempo.
Que horas passa o ônibus?
Tem dois daqui a cinco minutos. O próximo só em 45 ou uma hora.
Pfffff…
Tira o protetor do ouvido.
Som da TV ligada, os kardashians discutindo a relação. Um Ipad toca Chandelier pela milésima vez, alguém colocou no modo repetir, só pode.
Falam espanhol na sala, quem será que já acordou?
A cama da frente está vazia. Ontem a noite também estava e se a luz não tivesse sido acesa as 3 da manhã seria certo de que nunca fora ocupada. Essa gente não dorme não?
Tem que levantar.
Aaaaaai…
Melhor calçar as pantufas antes de pisar no chão.
Pantufas do Mickey.
Aaaah... Macio.
Levanta.
Pontada no pé. Ai.
Pontada no outro. Ai.
Pontada no pé.
Pontada no outro.
Closet. Pega as toalhas que estão em um cabide, toalhas macias de algodão egípcio. Chique.
Que dor no pé.
Quanto tempo será que tem de shift hoje? Cadê o print screen da tela?
Ah... Oito horas de shift. Isso quer dizer quarenta e cinco minutos de break. Qual land?
Main Street. Ah... Graças! Mais perto da garagem! Dá pra sentar por mais tempo.
Ótimo…
Banheiro. Lava o rosto, escova os dentes, dá um jeito na descarga que estragou outra vez, tem que ver isso hein? Sem falta.
Alguém tem que tirar o lixo do banheiro. Logo.
A luz do meio do espelho quebrou. Tem que ir na Front Desk pedir pra trocarem.
Tem que ver isso. Hoje, antes de sair de casa.
Que horas são?
Oito e cinquenta já? Como passou tão depressa?
Que horas o shift começa hoje?
11:00... Que horas tem ônibus mesmo? Melhor colocar um alerta.
Tem um daqui a cinquenta minutos? Tá certa essa conta? Não tinha que ser vinte e cinco?
Affff…
Que seja. Dá tempo de ir na Front Desk.
Hum... Café da manhã...
Devia ter ido no Wall Mart ontem. Não tem nada nessa casa. Só sobrou Fruit Loops e um iogurte.
Ah... Come o cereal hoje, deixa o iogurte para amanhã. Depois de amanhã o shift acaba antes das oito da noite, dá tempo de ir no mercado.
- ‘Morning, girls.
- Good Morning, princess.
- Awn... thank you! Are you having a magical morning?
Tem que ficar na ponta dos pés para alcançar a última prateleira do armário, porque o cereal tá tão longe?
Hum... sem louça limpa.
Será que dá pra confiar no que tem na máquina? Ou na pia é melhor?
Hum… Melhor lavar…
Que horas são?
Nove e dez.
Não dá tempo. Come direto da caixa mesmo.
Alguém tirou o lixo?
Nah…
Quem misturou o reciclável e orgânico outra vez?
…
Tá na hora de limpar esse apartamento, vai que dá inspection?
Maybe…
Chandelier continua a tocar. Alguém muda essa playlist?
Parece que a mãe da Kim Kardashian comprou o apartamento que a filha queria e elas não vão mais se falar por causa disso.
Hum…
Celular vibra.
*Transloc – Rider: A bus is aproching Chatham Square in 15 minutes*
What the heck?!
Engole o Fruit Loops.
Joga a caixa fora.
Que bom que não tinha louça.
Corre pro quarto.
Põe a costume.
Cadê nametag?
Que horas são?
Nove e meia.
Dez minutos.
Tem outro ônibus?
Pega as meias. São 100% brancas? Ótimo!
Abre o aplicativo.
Maldita internet lerda do Patterson!
Calça os tênis.
Não!
Não esses! Os de trabalhar!
Próximo ônibus em sete minutos. Outro só em uma hora.
DAMN!!!
Costume?
Check.
Hat?
Check.
Nametag?
Check.
Capa de chuva, carteira, chave de casa e jaqueta?
Check, check, check, check, check.
Blue ID?
Check.
Que horas são?
Nove e quarenta.
- Bye, girls, have a nice day.
- You too! See ya!
Joga todo peso do corpo pra abrir a porta. A chave ta aqui? Tá. Ok. Dá pra fechar a porta.
Que friiiiiioooo!
Se der tempo tem que passar na costuming pra pegar casaco.
Será que vai dar?
Nah...
Uma hora e meia pra chegar no Magic pelo menos.
AAAAAAFFFFF....
É bom que demore menos.
Corre.
Senão perde o ônibus.
Tinha que ter ido na Front Desk... Tinha que ter acordado mais cedo...
Agora já era.
Que ônibus é aquele?
…
C Bus.
Ufa...
Pera...
Será que perdi?
Maldito celular escravo da wi fi!
Tem um ônibus ali!
Corre!
Moço! Espera!
…
- Thank you so, so much!
Aaaaahhhh....
E tem lugar pra sentar.
Quantos dias ainda falta pro programa acabar mesmo? Um mês? Só isso? Bem que podia ser mais um ano inteiro...
O Marzipan
Aquilo que você escreve reflete aquilo que você é. O Marzipan é um espaço que criei para compartilhar minhas histórias. Entre, fique a vontade para explorar e deixar seus comentários!
quinta-feira, 16 de abril de 2015
quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014
Meia Noite em Paris
Não, não é sobre o filme de Woody Allen, mas não seria estranho se fosse.
Nós havíamos deixado Monmatre inspiradas pelos artistas. Era verão em Paris,
já contavam nove horas da noite e o sol ainda estava no céu. Éramos em nove
meninas, todas bailarinas desde que nos conhecíamos por gente, mais o casal
mais velho que nos acompanhava; nossos segundos pais e também diretores
artísticos.
Dia 14 de Julho, feriado na França, dia da Revolução, a cidade em festa. E
tudo o que nos passava pela cabeça era que ventava, demais. O vento gelado
trazia clareza aos pensamentos e deixava Monmatre, o bairro dos artistas,
estranhamente mais interessante, como se de alguma forma o vento ajudasse a
propagar as músicas que vinham das vielas e os gritos dos pintores em busca de
modelos.
Estávamos os onze tão embriagados com essa sensação maravilhosa que, na hora
de pegar o metrô para voltar ao hotel, fomos para o sentido errado.
Dezessete estações e três horas depois, tendo visitado involuntariamente boa
parte dos subúrbios de Paris, voltamos para a segurança da praça que ligava
nosso hotel, um simpático café e o Museu do Louvre.
Ríamos alto, conversando sobre a aventura que fora andar por bairros tão
desconhecidos dos turistas. Nossas vozes se juntavam com a dos outros
passantes e com a daqueles que comiam no saguão do hotel ou no café.
Estávamos bem, felizes e em paz.
Meia-noite. Finalmente o sol nos tinha deixado e as luzes que davam tanta fama
a cidade já estavam mostrando sua beleza. Aquela praça que atravessávamos
parecia interminável. Tão bonita, iluminada como um palco, talvez... tentadora
demais.
Afinal de contas, somos bailarinas. Um espaço tão grande e vazio não poderia ser
sumariamente ignorado.
Uma das meninas virou para a diretora:
-Nos ensina o Pas de Quatre?
-E por quê não? – argumentou outra menina, empolgada com a ideia.
-Aqui? – ela estranhou.
-E por quê não? – argumentou outra menina, empolgada com a ideia.
O Pas de Quatre é uma das danças mais difíceis do ballet “O Lago dos Cisnes”,
dançá-lo corretamente é o grande sonho de qualquer jovem bailarina. Para nós
nove não era diferente.
A diretora sorriu. Em qualquer outro lugar ou outro momento ela não teria
cedido com tanta facilidade. Mas estavam em Paris, haviam acabado de deixar
Monmatre. E era meia-noite.
Juntaram-se em dois grupos de quatro, sendo que a mais velha das jovens
bailarinas ficara de fora, auxiliando a diretora na instrução das mais novas.
Cantando nós mesmas, a cappella, a música do famoso repertório, começamos a
seguir as instruções da diretora.
Dobra o joelho direito, dobra o esquerdo, direito, esquerdo, joga o peso sobre a
perna direita, sobe na ponta dos tênis. Repete.
Uma pisando no pé da outra, fazendo muito barulho e sem nunca parar de cantar
a música instrumental, seguíamos na nossa aula improvisada.
Obviamente começamos a chamar a atenção dos que passavam ou comiam
nos arredores. A grande maioria era turista, uns poucos franceses. Todos riam
daquela situação, divertidos. Perceber que tínhamos plateia nos deixou ainda
mais animadas, por poucos instantes nos sentimos como as mais dedicadas
solistas da Ópera de Paris e, como verdadeiras bailarinas, não paramos de
dançar.
Um músico passou, parou, acenou em reconhecimento a arte. Inspirado, tocou os
acordes iniciais do Pas de Quatre. Ele logo desistiu, guardou seu instrumento e
seguiu viagem.
Por fim paramos, cansadas demais para terminar o espetáculo. A plateia
improvisada ria e aplaudia. Agradecemos, dobrando os joelhos e colocando as
mãos na cintura, como manda o ballet clássico.
Caminhamos em direção ao hotel sentindo aquela sensação agradável de
quem acabou de sair do palco, ainda cantando a música de nossa pequena
apresentação e pensando como éramos pessoas de sorte por ter vivido aquele
pequeno momento, dançado naquela praça, juntas, e recebido aplausos de totais
desconhecidos. Nem mesmo dançar na própria Ópera de Paris nos teria feito
mais felizes naquela madrugada.
O vento continuava a soprar gelado, trazendo-nos os perfumes de Paris e
levando para a noite a melodia desafinada que cantávamos.
Esse texto foi produzido para a disciplina de Redação Jornalística I, curso de Jornalismo da UFPR, professor José Carlos Fernandes.
Nós havíamos deixado Monmatre inspiradas pelos artistas. Era verão em Paris,
já contavam nove horas da noite e o sol ainda estava no céu. Éramos em nove
meninas, todas bailarinas desde que nos conhecíamos por gente, mais o casal
mais velho que nos acompanhava; nossos segundos pais e também diretores
artísticos.
Dia 14 de Julho, feriado na França, dia da Revolução, a cidade em festa. E
tudo o que nos passava pela cabeça era que ventava, demais. O vento gelado
trazia clareza aos pensamentos e deixava Monmatre, o bairro dos artistas,
estranhamente mais interessante, como se de alguma forma o vento ajudasse a
propagar as músicas que vinham das vielas e os gritos dos pintores em busca de
modelos.
Estávamos os onze tão embriagados com essa sensação maravilhosa que, na hora
de pegar o metrô para voltar ao hotel, fomos para o sentido errado.
Dezessete estações e três horas depois, tendo visitado involuntariamente boa
parte dos subúrbios de Paris, voltamos para a segurança da praça que ligava
nosso hotel, um simpático café e o Museu do Louvre.
Ríamos alto, conversando sobre a aventura que fora andar por bairros tão
desconhecidos dos turistas. Nossas vozes se juntavam com a dos outros
passantes e com a daqueles que comiam no saguão do hotel ou no café.
Estávamos bem, felizes e em paz.
Meia-noite. Finalmente o sol nos tinha deixado e as luzes que davam tanta fama
a cidade já estavam mostrando sua beleza. Aquela praça que atravessávamos
parecia interminável. Tão bonita, iluminada como um palco, talvez... tentadora
demais.
Afinal de contas, somos bailarinas. Um espaço tão grande e vazio não poderia ser
sumariamente ignorado.
Uma das meninas virou para a diretora:
-Nos ensina o Pas de Quatre?
-E por quê não? – argumentou outra menina, empolgada com a ideia.
-Aqui? – ela estranhou.
-E por quê não? – argumentou outra menina, empolgada com a ideia.
O Pas de Quatre é uma das danças mais difíceis do ballet “O Lago dos Cisnes”,
dançá-lo corretamente é o grande sonho de qualquer jovem bailarina. Para nós
nove não era diferente.
A diretora sorriu. Em qualquer outro lugar ou outro momento ela não teria
cedido com tanta facilidade. Mas estavam em Paris, haviam acabado de deixar
Monmatre. E era meia-noite.
Juntaram-se em dois grupos de quatro, sendo que a mais velha das jovens
bailarinas ficara de fora, auxiliando a diretora na instrução das mais novas.
Cantando nós mesmas, a cappella, a música do famoso repertório, começamos a
seguir as instruções da diretora.
Dobra o joelho direito, dobra o esquerdo, direito, esquerdo, joga o peso sobre a
perna direita, sobe na ponta dos tênis. Repete.
Uma pisando no pé da outra, fazendo muito barulho e sem nunca parar de cantar
a música instrumental, seguíamos na nossa aula improvisada.
Obviamente começamos a chamar a atenção dos que passavam ou comiam
nos arredores. A grande maioria era turista, uns poucos franceses. Todos riam
daquela situação, divertidos. Perceber que tínhamos plateia nos deixou ainda
mais animadas, por poucos instantes nos sentimos como as mais dedicadas
solistas da Ópera de Paris e, como verdadeiras bailarinas, não paramos de
dançar.
Um músico passou, parou, acenou em reconhecimento a arte. Inspirado, tocou os
acordes iniciais do Pas de Quatre. Ele logo desistiu, guardou seu instrumento e
seguiu viagem.
Por fim paramos, cansadas demais para terminar o espetáculo. A plateia
improvisada ria e aplaudia. Agradecemos, dobrando os joelhos e colocando as
mãos na cintura, como manda o ballet clássico.
Caminhamos em direção ao hotel sentindo aquela sensação agradável de
quem acabou de sair do palco, ainda cantando a música de nossa pequena
apresentação e pensando como éramos pessoas de sorte por ter vivido aquele
pequeno momento, dançado naquela praça, juntas, e recebido aplausos de totais
desconhecidos. Nem mesmo dançar na própria Ópera de Paris nos teria feito
mais felizes naquela madrugada.
O vento continuava a soprar gelado, trazendo-nos os perfumes de Paris e
levando para a noite a melodia desafinada que cantávamos.
Esse texto foi produzido para a disciplina de Redação Jornalística I, curso de Jornalismo da UFPR, professor José Carlos Fernandes.
domingo, 29 de dezembro de 2013
White Flowers
Esse texto foi escrito para o curso de Fiction Writing I - Universidade de Nova Iorque (NYU-SCPS).
Everyday
was the same thing, she wakes up, drinks a glass of water, dresses herself in a
white dress that matches perfectly her strawberry-blonde hair and blue eyes
and, barefooted, goes for a walk.
She walks
two and a half miles until she reaches the river. She kneels on the margin,
picks some wild flowers from the grass and one by one lay them down in the
current. The last one, she puts behind her ear, in the middle of her hair.
She stares
at the water until the last flower is gone and then walks back home and starts
her day as just any other person.
If I weren’t
her only and first neighbor in the last two months I wouldn’t have even guessed
that such a girl could have that weird kind of habit, she looked so normal.
I once
wondered if she belonged to some kind of faction, but what would that be if she
were always lonely in her rituals?
Then I
thought that she might have lost someone on that river. Her mother, maybe, a
brother, even a lover. It must have been that, she was such a lonely girl.
I never got
an actual talk with her. Ever since I moved in, not a single “Hello, neighbor,
how are you?”.
I only got
to know about her existence because of the light she turns on every night in
her room and her strange morning routine.
This girl
is starting to puzzle me. Who is she? Does she have friends? And most important
of all: Why she has that morning ritual?
This last
question is picking me on my nerves. I decided to ask her.
I got home
from work and I walk to her door, to wait for her.
I wait for
almost two hours until I give up and go back to the safety of my living room.
But I keep
my curtains opened, looking straight to her house, waiting for the time she
would arrive.
Maybe she
was stuck in her work?
My own work
was quite stressful that morning. I am so tired...
I close my
eyes, enjoying the darkness.
I feel like
I only have slept for a few seconds, but when I wake up I see that the clock’s
hands have moved a good amount of inches and my neighbor’s house has already a
small hint of light in it’s second floor.
“It’s probably
her room.” I thought.
I pictured
how it must look like, what secrets it may hide. Maybe if I find a way to get
in...
No! That
would be property invasion. And it is a crime as long as I remember. “No, Ian,
you are just too tired. Go to sleep and tomorrow you will see that all this
obsession of yours is just pure non-sense.” I reasoned with myself.
Without
much thinking I get to my bedroom and sink into my bed, falling into a dreamless
but strangely white sleep.
My alarm clock
wakes me up at 6:30 a.m with the locator on the radio calling the latest news.
“The body of a young man was found completely
deteriorated in the margins of a river near...”
“Bad news already?”
I think, automatically going to the window and opening the curtains.
The house
is still there, just on the other side of the street, and from the kitchen
window I could see my neighbor drinking her regular glass of water, already
dressed in white.
I accompany
her journey from outside the house until the river. I see her collecting the
flowers, white ones, umbrella shaped. She lays them on the river and saves the
last one for her hair, then, comes back home.
That’s it!
Now I’ll talk to her.
I go
downstairs, jumping a few steps, running to get to her in time.
She is
passing in the front of my house just when I open the door.
“Hey! You!”
I shout, without much thinking.
She turns
her head to me, a little bothered, probably because I am an interruption to her
morning ritual.
“Sorry, can
I ask you something?”
The girl
nodded.
“What...
Why do you go everyday to that river?”
She
frowned.
“Why do you
look at me everyday while I do it?”
It was my
time to frown. Couldn’t she see how curious she was making me?
“Well,
because...”
“If you
don’t mind, sir, I would like to go back home and change for work. Have a good
day.”
And she
left. Not even a warning or a “stop stalking me” advice. No answer to my
question, as well.
I bite my
nails. Now I ‘ll have to find another way to figure it out.
Do I have
to figure that out? After all, is her life we are talking about, not mine.
I think
about that idea while I observe her mounting her bicycle and getting off to
work.
Her house
was enticingly empty. Does she leaves the door unlocked?
“No, Ian,
go to work!”
I obeyed
the still-reasonable part of myself and entered home, looking for my suit and
car keys.
The whole
day in the office I thought about her. Where did she work? Does she have
family? Did her family died in that river and now she takes flowers for them
every morning?
No... I
don’t think so. She would’ve looked at least a bit sad when I asked her this
morning if that was the case.
Did she let
the door unlocked? It would make my life so easy.
I checked
the clock. The time seemed to walk as slow as a slug, I couldn’t see the time
to go home. Maybe I could tell the boss I am feeling sick.
“And then
what?” asked my subconscious.
And then I
can see if she have let the door opened, and if she did, I can slip in to her
room and see if I can find any more information about her.
My reason
tries one last attempt to talk me out of it, but I shut it down.
I stand up
from my chair and walk to the boss’ room.
“Excuse-me.”
“Yes, Ian.”
“I am
feeling a bit of a headache, do you mind if I go home?”
“As sure as
you can work from there I can see no problem.”
“Sure.” I
said, already leaving the boss’ office. I will have plenty of time to work
after I sneak into her house.
I drive
back desperately, without even bothering with speed limit or other small
traffic rules.
I arrive a
to our small street with relief. I park my car in my side of the sidewalk and
go straight to her house. The front door is close. Of course! How can I have
been so stupid? After our talk this morning she would be an idiot if she didn’t
locked the door.
But there’s
always the backdoor. I go to the backyard, jumping the useless white stakes
that were supposed to stop me. I find that only an insect net closes the door.
That’s easy
to handle. I take my car keys from my pocket and use them as a knife to cut through
the net. A few strokes are enough.
I am in.
Inside a small clean and white laundry. I go through the door and I am in a
wide and also white kitchen. On the counter is an empty glass, the one she uses
to drink water to her ritual. Next to it is a green bottle, filled with water.
I keep
walking and I get to her living room, a simple one, just a small table full of
papers and bills and an armchair.
No
portraits, no paintings, nothing that could give me a slightest clue of who my neighbor
is.
I climb up
the stairs and I get to a small hall with two doors. I open the first one and I
find one bathroom with a white towel hanging in the wall and a blue soap inside
the box, near the shower. On the sink, lay a blue toothbrush and a just-bought
toothpaste. That was all.
I got even
more stressed as I close the door. It seems that she was doing this just to
provoke me, to hide herself from me, to stop me from getting more information
about her. That was not fair!
I opened
the last door, feeling my hopes open with it. The last door was her room.
A perfectly
tied bedroom, all in shades of cream and rose. She has a single bed, covered
with soft pink sheets. Next to it was a bedside table with a lamp. On the wall
in the opposite side of the white curtains that closed the window was a closet,
not a large one. I opened it and I found three dresses of different colors and
the white dress. No shoes were there to be seen, she probably had only one pair
of them.
I mumbled
incoherently, looking around to see if I find something else. A small desk hits
my eyes. It is organized like it was an altar, with a blue vase with a single
white rose.
Underneath
it was a pink music box. I open it and a sweet classical song I don’t recognize
enter my ears. Inside, the music box smells like wildflowers and the origin of
this scent are the dried flowers that are saved in there.
“It must be
the flowers she puts in her head.”
I close the
box and put it in its original place, and when I do so, my fingers brush a few
polaroid pictures.
I count
them, twelve. All of them were shoot in the margins of the river the girl goes
every morning, all of them showing young men.
I turn the
pictures in my hands. Behind them are the dates they were taken, written in her
handwrite, the most recent was taken only two months before my arrival.
I put the
pictures back below the music box and make my way to the backdoor.
That was
something. A small clue, at least. But who were those men? Relatives? But they
didn’t look like my neighbor, with a single exception of one, the man that
appears in the oldest picture.
I go back
to my house. To the living room, the curtains from the window are open and I
wait for her to arrive.
The clock
strikes six when I finally see her bicycle entering the street.
“I wonder what
she will think about the hole I opened in her backdoor.”
I stare at
her house, waiting for her reaction, but she enters by the front door and I
have to sit down and wait half an hour until the regular light appears in her
bedroom.
“Maybe she
hasn’t been in the laundry yet.”
The light
stays on for fifteen minutes and then suddenly is turned off. A break in the
routine, that’s weird.
The kitchen
light is turned on and I can see her drinking her glass of water dressed in
white.
She is
repeating her morning ritual, but at night. I stand up as she opens her front
door and walks out. She seems to be carrying something in her hand but it’s too
dark for me to be sure.
And is also
too dark for me to see from home what she is going to do at the river. I have
to follow her.
Without
even remembering to grab a flashlight I walk out the door and, from a safe
distance, follow her to the river.
The moon is
crescent but its light is still strong enough to guide my steps. When I arrive
I find her kneeled in the margin, with fourteen white umbrella shaped flowers
in her right hand and a Polaroid camera in the other.
“You’ve
followed me.” She said, starring at the waters.
“Yes, I did.”
“Why?”
“I was
curious, I wanted to know what you are doing here tonight.”
“Well, I
guess tonight you have the right to know. Come near.”
I go,
completely hypnotized by that mysterious girl. I kneel beside her, eager to get
my answers.
“How many
flowers do I have in my hands?”
“Fourteen.”
“You are a
good mathematician. And how many pictures did you see in my room today?”
She knows I
invaded her house. Shouldn’t she be bothered with that?
“Twelve.”
“Good. You
know, the man in the oldest photo is my brother. He used to live in your house
sharing it with a roommate. They were very good friends, until he killed my
brother.”
I inhale
deeply.
“Oh, no,
don’t worry about that. I always have avenged him properly. Eleven times until
this night, actually. And all of them lived in my brother’s house once.”
She smiles.
She takes one white flower by one and put twelve of them in the water. She
hands me the thirteenth while gets her Polaroid.
“Smile.”
She invites.
I look at
the camera with a confused face, one hand holding the white flower. The Polaroid
flashes and an instant picture of me exits from the proper hole.
She takes
my hand that holds the flower and gently lifts it to my mouth.
“This
flower is so tasty.” She lifts her own flower to her nose. “And smells so good.
Why don’t you try it?”
Slowly, I
began to realize what she is meaning to, and panic hits me. The news at the
radio this morning, the date behind the last man’s photograph… At almost the
same time, she pushes my right hand strongly against my mouth and a few white
petals slide inside it. Immediately my hole body tremble, making my mouth open
wider and more petals go inside. My throat closes and, as I struggle for air, I
swallow all the rest of the flower.
“Don’t
worry.” She said, softly. “I will always remember you, I will bring you new
flowers every morning. I can weep for you if you desire.”
“Wh...
wh...y... Why...?” I manage to mumble before my whole body starts to convulsion.
“Because
this what I have to do, for him, my brother.”
She kisses
my forehead and gently rolls me to the river.
“Farewell.”
Her voice is the last thing I listen before my
eyes are shut forever.
sexta-feira, 20 de dezembro de 2013
The Wedding Dress
Envolto num pacote branco e pendurado num cabide lá estava o
Vestido de Noiva, sendo carregado ao alto da cabeça da dita cuja. Seis da manhã
em Nova Iorque, os passageiros do voo TAM com destino a São Paulo estavam
rigorosamente enfileirados para o check-in.
Mas o Vestido era especial. A sua noiva, ou o noivo, pouco
importa, eram clientes fidelidade vermelho e facilmente burlavam a fila
homérica.
-Vai despachar? – perguntou a atendente.
“De jeito nenhum!”
Responderia o vestido caso ele soubesse falar.
-Não, ele vai na mão mesmo. – disse a mãe da noiva, num tom
educadamente ofendido.
A noiva trocou o cabide de braço, era pesado o Vestido.
Foram os cinco para o embarque, noiva, noivo, sogros e
Vestido. Na hora de passar pelo raio x, sua dona colocou delicadamente a
vestimenta sobre a esteira, com medo de que amassasse. O Vestido não se
importou, estava bem protegido por sua capa branca.
Passada a exagerada segurança americana, a noiva novamente
pegou o cabide e ergueu a delicada peça de roupa para o alto.
Chegaram a sala de embarque, não estava muito cheia ainda,
as vantagens de ter cartão fidelidade vermelho.
Sentaram-se os cinco, cada um em uma cadeira.
-Coloca a bolsa na cadeira do vestido, amor. – disse o
noivo.
-Não! Vai amassar. – respondeu a sogra, e colocou a bolsa da
filha no colo.
Aos poucos passaram a chegar mais pessoas, os lugares para
se sentar acabaram e alguns olhares feios se dirigiram à cadeira ocupada
exclusivamente por aquele pedaço de pano branco.
Se pudesse falar, o Vestido responderia:
“Podem olhar. Não vou
sair daqui nem dar meu lugar a vocês. Sou especial, sou um Vestido de Noiva de
uma grife de Nova Iorque, e vocês quem são?”
Depois de um tempo que não parecia passar nunca, chamaram os
passageiros para o embarque na aeronave. Novamente, todos se enfileiraram.
O Vestido tinha prioridade, junto com idosos, deficientes,
gestantes ou pessoas com crianças de colo.
Embarcaram todos.
A noiva, o noivo e os sogros haviam conseguido o primeiro
acento da classe econômica, aqueles com a parede bem a frente, onde podiam
pendurar o Vestido e garantir que ele fizesse uma viagem segura.
Todos se acomodaram, alguns até caíram no sono, enquanto
esperavam o aviso de decolagem autorizada.
O avião começou a taxiar na pista. Testou as turbinas,
preparou-se para voar. E então parou.
-Atenção senhores passageiros, aqui quem fala é o
comandante. Nós encontramos um problema numa das peças da aeronave. Informamos
que o voo terá um atraso de uma hora enquanto realizamos a manutenção.
Uma hora não era muito, dava para esperar. Mas quando a
segunda hora já avançava longe os passageiros começaram a se perguntar o que
estava havendo.
-Senhores passageiros, aqui é novamente o comandante. A peça
terá que ser trocada. Não há nenhuma do tipo em Nova Iorque, portanto o processo
demorará cerca de oito horas. Os senhores deverão esperar no saguão do
aeroporto por novas instruções.
-O quê? – exclamou o noivo indignado.
Muitas outras pessoas fizeram-lhe coro. Xingando, mas
obedientes, todos saíram do avião.
A noiva adiantou-se para o Vestido.
-Não, eu levo, amor, isso pode demorar. – ofereceu-se o
noivo.
De bom grado a mulher aceitou, seus braços ainda se
lembravam do peso do tecido. O Vestido sentiu-se traído, mas nada podia fazer e
foi com o noivo sem reclamar.
O saguão estava apinhado de brasileiros, todos falando alto
e enfileirados sem motivo, fazendo jus à sua fama internacional.
O noivo resolveu sentar o Vestido numa cadeira vazia. Não
queria se cansar tão rápido.
O autofalante chiou e uma mensagem em português soou clara:
“Atenção passageiros TAM com destino a São Paulo. A
companhia informa que seu voo foi cancelado e que os senhores devem acompanhar
a funcionaria Jaia até o hotel.”
Imediatamente milhares de perguntas surgiram.
-Cancelado? Como assim Cancelado?
-Hotel?
-Qual hotel é esse?
-Tem quarto melhor pra primeira classe?
-É em Manhattan? Ou aqui no Queens?
-Como vamos pra esse hotel?
-Não seria melhor ficar aqui?
Para tudo, uma pobre e desesperada atendente da TAM
respondia a altos brados do balcão:
-Sigam a funcionaria Jaia! Sigam a funcionaria Jaia!
Até que, em uníssono, todos os passageiros gritaram.
-E cadê a Jaia?
Uma pequena mão levantou-se no ar.
-Estou aqui! – gritou Jaia, do alto de seu 1,45 m de altura.
Um homem mais alto agarrou-a pelo ombro e chamou os demais.
-Achei a Jaia! Todo mundo consegue me ver?
Não, ele também não chamava atenção o suficiente. O Vestido
teve um insight e escorregou um pouco
na cadeira para chamar a atenção do noivo para si.
Deu certo. O homem, desesperado pela segurança do Vestido,
rapidamente pegou-o pelo cabide por uma mão e ergueu-o no alto da cabeça, com a
outra, pegou a noiva e foi em direção ao ponto onde, hipoteticamente, estava
Jaia.
O plano do Vestido não demorou a ser compreendido pelos
demais.
-Coloca o Vestido do lado da Jaia, assim não tem como perder
ela de vista.
A ideia foi aplaudida pelos demais e logo, o Vestido e sua
comitiva andavam a frente, guiando os passageiros pelos túneis do aeroporto em
direção ao metrô.
De repente, Jaia parou.
-Atenção! Todos conseguem me ouvir? – gritou a sua voz
fraquinha.
Da metade pro fim do grupo, instintivamente, todos
responderam:
-Não!
Uma mulher carioca, que estava situada exatamente no meio do
grupo, se adiantou:
-Dá licença, Jaia? É que tua voz é meio fraquinha. Diz aí o
que você quer falar que eu passo para o pessoal.
A funcionaria passou as instruções. Peguem o metrô, desçam
na estação tal, não percam de vista o Vestido.
A voz de megafone da mulher carioca garantiu que todos
compreendessem a mensagem.
Entraram no trem. O noivo carregando o Vestido, em vão
tentando evitar que amassasse no enlatado que estava o vagão.
Chegaram ao hotel. Daqueles simples, perto de aeroporto.
Foram recebidos por um aviso em tinta vermelha num quadro para canetas branco,
escrito às pressas, dando-lhes as boas vindas.
Cada grupo de passageiros conseguiu um quarto. O Vestido foi
guardado na segurança do cômodo, tendo consigo os sogros ou a noiva para
vigiá-lo, nunca o noivo. Dá azar.
No saguão, os passageiros comentavam o feito heroico do
Vestido.
-Sem ele teríamos nos perdido.
-Será que é bonito? A noiva podia mostrar pra gente né?
-Podia. A gente prendia o noivo no quarto enquanto ela
trazia o Vestido pra baixo e...
-Gente, e que noivo, hein?
-Pois é, carregando o vestido assim, sem reclamar.
-Isso não é noivo, é irmão.
-Se é, então a irmã deve ser uma chata e ele quer que ela
saia logo de casa, senão não carregaria vestido.
-Não, é noivo, conheço esse casal.
-Sério? Então você vai no casamento.
-Não... Não fui convidada.
-Nossa que chato.
-Eles deviam é convidar o avião inteiro depois dessa. Somos
parte importante da história do Vestido.
Estavam tão entretidos em seus comentários que não repararam
a funcionaria Jaia se esgueirar para fora do hotel.
-Cadê a Jaia?
-Sumiu.
-E como vamos saber quando voltar?
-Não vamos.
Um dia inteiro se passou. Os passageiros estavam assustados.
A companhia aérea não dava notícias. O hotel reclamava de sua presença. E o
Vestido de Noiva não estava a vista.
Pela manhã do segundo dia um grande ônibus apareceu na porta
do hotel.
-Será que é para irmos embora? – perguntou uma menina
esperançosa.
-Não sei, vou perguntar.
O motorista dizia que era, mas não havia ninguém da TAM para
confirmar.
Como uma estrela-guia, surgiu o Vestido, retirado da
segurança de seu quarto e novamente na mão do noivo, sendo carregado no alto.
-O Vestido! Sigam o Vestido!
-Se ele vai eu também vou. – disse uma senhora.
-E eu! – concordou sua amiga.
Foram todos. Todos confiavam naquele Vestido.
Chegaram de fato ao aeroporto. Novamente sentaram-se nas
cadeiras duras da sala de embarque. Dessa vez, quando o casal colocou o Vestido
em uma cadeira especial ninguém reclamou ou olhou feio, haviam aprendido a
dar-lhe seu verdadeiro valor.
Só uma cadeira está bem para o senhor, senhor Vestido? Posso
ceder-lhe a minha se quiser.
Embarcaram no voo mais turbulento que qualquer um já
conhecera. Durante toda a viagem o Vestido temia cair no chão. A noiva olhava
preocupada, com o medo que amassasse entrando em conflito com o medo por sua
própria vida.
Enfim tocaram solo brasileiro. Nunca as instruções de
desatar cintos apenas com a parada total da aeronave foram obedecidas tão
literalmente.
Uma salva de palmas ecoou pela cabine. Todos gratos por
estarem em casa.
O comandante pode ter acreditado que aquelas palmas eram
para ele, que ele havia feito um bom voo. Mas não. Aquelas palmas eram para o
Vestido, que salvara as vidas de todos naquela aeronave. Graças a ele, ninguém
havia sido deixado para trás.
Se estavam seguros e em casa era ao Vestido que deveriam
agradecer. Ele havia provado seu valor.
Portanto, dou-lhe uma dica; se algum dia tiver que escolher
entre uma companhia aérea e um vestido, escolha a segunda opção, vestidos são,
por natureza, mais confiáveis.
terça-feira, 3 de dezembro de 2013
O marzipan
Existem prazeres simples na vida. Coisas que tocam o coração de cada pessoa, coisas que nos fazem sentir únicos. Essas coisas nos trazem à tona lembranças das mais variadas, lembranças que marcaram nossa vida de alguma maneira.
Para mim, assim é o Marzipã.
Meu primeiro contato não foi com o doce propriamente dito, mas com o nome. Eu tinha 12 anos e lia avidamente o terceiro livro da saga Fronteiras do Universo, de Philip Pullman. Já pro final do volume havia um capítulo cujo título era esse; Marzipã. Eu não sabia o que significava tal palavra e, como tudo o que nos E desconhecido, o nome me inspirou mil fantasias, até que resolvi perguntar a minha mãe o que era. Ela me respondeu: é um doce. E, ocupada, voltou a seus afazeres. Fiquei a me indagar que tipo de doce seria e resolvi ler o livro mais um pouco, pra ver se aparecia alguma coisa. O que acabei encontrando foi muito melhor.
Não! Não vou contar o que foi! Estragaria toda a história. Se ficou curioso vá ler o livro. Mas se eu não relatasse como me senti após ler esse texto perderia seu propósito. O autor conduziu a narrativa com uma beleza tão grande, que me tocou num lugar que ainda não conhecia e desde então, muito parecido com o próprio acontecimento do livro, um novo mundo se abriu pra mim.Fiquei com vontade de experimentar o dito doce. Foi difícil encontrá-lo puro, sem chocolate, bala ou qualquer outra coisa misturada, mas enfim consegui!O gosto? Bem, quanto a isso devo admitir que não é o melhor doce do mundo, mas não é isso que importa. Quando pela primeira vez abri a embalagem dourada com a palavra Marzipã escrita em letras vermelhas e mrdi o primeiro pedaço, foi como se todas as coisas que eu mais gostasse no mundo, todas as pessoas, as ocasiões, as sensações, os sentimentos, tudo, estivessem naquele único doce.É uma sensação difícil de descrever, mas acredito que sabem do que eu estou falando. Pode não ser um doce, pode ser um livro, um lugar, ou até um conjunto de coisas, mas acho que todos possuímos um "bode expiatório" para trazer à tona nossos sentimentos mais agradáveis.Desde então, comer Marzipã se tornou um ritual pra mim. Obedeço fielmente cada uma das etapas: 1. encontrar o doce puro, 2. esperar o momento certo, 3. dar uma ou duas mordidas no máximo, 4. lembrar de tudo aquilo que me faz sentir bem, 5. embrulhar o que sobrou e esperar o momento certo pra começar tudo de novo. Ache o que quiser, mas para mim, o Marzipã é um dos raros momentos em que, na correria da vida, encontro comigo mesma e relembro quem sou.
(Luiza, 2012. - Esse texto foi originalmente publicado por mim no blog associacaodejovenscriativos.blogspot.com)
Para mim, assim é o Marzipã.
Meu primeiro contato não foi com o doce propriamente dito, mas com o nome. Eu tinha 12 anos e lia avidamente o terceiro livro da saga Fronteiras do Universo, de Philip Pullman. Já pro final do volume havia um capítulo cujo título era esse; Marzipã. Eu não sabia o que significava tal palavra e, como tudo o que nos E desconhecido, o nome me inspirou mil fantasias, até que resolvi perguntar a minha mãe o que era. Ela me respondeu: é um doce. E, ocupada, voltou a seus afazeres. Fiquei a me indagar que tipo de doce seria e resolvi ler o livro mais um pouco, pra ver se aparecia alguma coisa. O que acabei encontrando foi muito melhor.
Não! Não vou contar o que foi! Estragaria toda a história. Se ficou curioso vá ler o livro. Mas se eu não relatasse como me senti após ler esse texto perderia seu propósito. O autor conduziu a narrativa com uma beleza tão grande, que me tocou num lugar que ainda não conhecia e desde então, muito parecido com o próprio acontecimento do livro, um novo mundo se abriu pra mim.Fiquei com vontade de experimentar o dito doce. Foi difícil encontrá-lo puro, sem chocolate, bala ou qualquer outra coisa misturada, mas enfim consegui!O gosto? Bem, quanto a isso devo admitir que não é o melhor doce do mundo, mas não é isso que importa. Quando pela primeira vez abri a embalagem dourada com a palavra Marzipã escrita em letras vermelhas e mrdi o primeiro pedaço, foi como se todas as coisas que eu mais gostasse no mundo, todas as pessoas, as ocasiões, as sensações, os sentimentos, tudo, estivessem naquele único doce.É uma sensação difícil de descrever, mas acredito que sabem do que eu estou falando. Pode não ser um doce, pode ser um livro, um lugar, ou até um conjunto de coisas, mas acho que todos possuímos um "bode expiatório" para trazer à tona nossos sentimentos mais agradáveis.Desde então, comer Marzipã se tornou um ritual pra mim. Obedeço fielmente cada uma das etapas: 1. encontrar o doce puro, 2. esperar o momento certo, 3. dar uma ou duas mordidas no máximo, 4. lembrar de tudo aquilo que me faz sentir bem, 5. embrulhar o que sobrou e esperar o momento certo pra começar tudo de novo. Ache o que quiser, mas para mim, o Marzipã é um dos raros momentos em que, na correria da vida, encontro comigo mesma e relembro quem sou.
(Luiza, 2012. - Esse texto foi originalmente publicado por mim no blog associacaodejovenscriativos.blogspot.com)
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