quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Meia Noite em Paris

Não, não é sobre o filme de Woody Allen, mas não seria estranho se fosse.


  Nós havíamos deixado Monmatre inspiradas pelos artistas. Era verão em Paris,
já contavam nove horas da noite e o sol ainda estava no céu. Éramos em nove
meninas, todas bailarinas desde que nos conhecíamos por gente, mais o casal
mais velho que nos acompanhava; nossos segundos pais e também diretores
artísticos.
 
  Dia 14 de Julho, feriado na França, dia da Revolução, a cidade em festa. E
tudo o que nos passava pela cabeça era que ventava, demais. O vento gelado
trazia clareza aos pensamentos e deixava Monmatre, o bairro dos artistas,
estranhamente mais interessante, como se de alguma forma o vento ajudasse a
propagar as músicas que vinham das vielas e os gritos dos pintores em busca de
modelos.
 
  Estávamos os onze tão embriagados com essa sensação maravilhosa que, na hora
de pegar o metrô para voltar ao hotel, fomos para o sentido errado.
 
  Dezessete estações e três horas depois, tendo visitado involuntariamente boa
parte dos subúrbios de Paris, voltamos para a segurança da praça que ligava
nosso hotel, um simpático café e o Museu do Louvre.
 
  Ríamos alto, conversando sobre a aventura que fora andar por bairros tão
desconhecidos dos turistas. Nossas vozes se juntavam com a dos outros
passantes e com a daqueles que comiam no saguão do hotel ou no café.

  Estávamos bem, felizes e em paz.
 
  Meia-noite. Finalmente o sol nos tinha deixado e as luzes que davam tanta fama
a cidade já estavam mostrando sua beleza. Aquela praça que atravessávamos
parecia interminável. Tão bonita, iluminada como um palco, talvez... tentadora
demais.
 
  Afinal de contas, somos bailarinas. Um espaço tão grande e vazio não poderia ser
sumariamente ignorado.
 
Uma das meninas virou para a diretora:
 
  -Nos ensina o Pas de Quatre?
 
  -E por quê não? – argumentou outra menina, empolgada com a ideia.
 
  -Aqui? – ela estranhou.
 
  -E por quê não? – argumentou outra menina, empolgada com a ideia.

   O Pas de Quatre é uma das danças mais difíceis do ballet “O Lago dos Cisnes”,
dançá-lo corretamente é o grande sonho de qualquer jovem bailarina. Para nós
nove não era diferente.

  A diretora sorriu. Em qualquer outro lugar ou outro momento ela não teria
cedido com tanta facilidade. Mas estavam em Paris, haviam acabado de deixar
Monmatre. E era meia-noite.

  Juntaram-se em dois grupos de quatro, sendo que a mais velha das jovens
bailarinas ficara de fora, auxiliando a diretora na instrução das mais novas.

 Cantando nós mesmas, a cappella, a música do famoso repertório, começamos a
seguir as instruções da diretora.

  Dobra o joelho direito, dobra o esquerdo, direito, esquerdo, joga o peso sobre a
perna direita, sobe na ponta dos tênis. Repete.

  Uma pisando no pé da outra, fazendo muito barulho e sem nunca parar de cantar
a música instrumental, seguíamos na nossa aula improvisada.

  Obviamente começamos a chamar a atenção dos que passavam ou comiam
nos arredores. A grande maioria era turista, uns poucos franceses. Todos riam
daquela situação, divertidos. Perceber que tínhamos plateia nos deixou ainda
mais animadas, por poucos instantes nos sentimos como as mais dedicadas
solistas da Ópera de Paris e, como verdadeiras bailarinas, não paramos de
dançar.

  Um músico passou, parou, acenou em reconhecimento a arte. Inspirado, tocou os
acordes iniciais do Pas de Quatre. Ele logo desistiu, guardou seu instrumento e
seguiu viagem.

  Por fim paramos, cansadas demais para terminar o espetáculo. A plateia
improvisada ria e aplaudia. Agradecemos, dobrando os joelhos e colocando as
mãos na cintura, como manda o ballet clássico.

  Caminhamos em direção ao hotel sentindo aquela sensação agradável de
quem acabou de sair do palco, ainda cantando a música de nossa pequena
apresentação e pensando como éramos pessoas de sorte por ter vivido aquele
pequeno momento, dançado naquela praça, juntas, e recebido aplausos de totais
desconhecidos. Nem mesmo dançar na própria Ópera de Paris nos teria feito
mais felizes naquela madrugada.

  O vento continuava a soprar gelado, trazendo-nos os perfumes de Paris e
levando para a noite a melodia desafinada que cantávamos.

Esse texto foi produzido para a disciplina de Redação  Jornalística I, curso de Jornalismo da UFPR, professor José Carlos Fernandes.

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